Covid-19: Em carta aberta, Corinthians posiciona-se contra retorno do futebol

O Sport Club Corinthians Paulista posicionou-se oficialmente contra o retorno dos campeonatos de futebol no Brasil em um momento no qual cerca de mil pessoas perdem a vida diariamente em meio à pandemia do novo coronavírus.

Em carta aberta assinada pelo presidente do clube, Andrés Sanchez, o Corinthians declara-se institucionalmente em favor da preservação das vidas, em linha com a posição assumida no Parque São Jorge desde que a Covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus, começou a circular pelo Brasil.

A posição corinthiana contraria a pressão de alguns dirigentes e políticos pelo retorno dos treinos e das competições apesar de a pandemia ainda parecer longe de chegar a um ponto de controle no Brasil, em grande medida por causa do descaso genocida do governo federal.

Ainda que a atual administração do Corinthians mereça duras críticas pela forma displicente como trata o futebol mosqueteiro e por maior que seja a saudade de ver o Timão em campo, merece aplausos o posicionamento da diretoria em um momento no qual a falta de bom senso e de solidariedade com as vítimas e familiares parece alastrar-se pelo Brasil quase na mesma velocidade que o vírus.

Confira a seguir a íntegra da carta divulgada hoje pelos canais de mídia do SCCP.


Carta Aberta: O papel do futebol na pandemia

O futebol não pode se antecipar ao controle do vírus

Depois de 23 mil mortes causadas pela Covid-19, todo debate é menor. Por isso, em nome do Corinthians, manifesto antes nossa solidariedade a cada brasileiro afetado por doença, luto, ou prejuízo profissional. Tudo isso importa.
E é legítimo que o futebol – como qualquer setor – procure saídas junto ao governo federal e a seus respectivos estados, prefeituras e federações, a fim de impedir um aprofundamento da crise na atividade. É preocupante, porém, que o Brasil viva um cenário muito diferente daqueles países que retomam suas ligas.
A queda de receitas já obrigou muitos clubes a executar cortes e demissões. O Corinthians tem adotado medidas de austeridade, como a redução temporária de salários e jornada, apoiada na MP 936. Fazemos e refazemos as contas diariamente, mas somos realistas: trata-se da pior epidemia no país nos últimos 100 anos, e nenhuma atividade econômica sairá dessa sem transformações inevitáveis.
No Corinthians, não será diferente. O que não muda é o nosso compromisso com um futebol forte como carro-chefe e a parte social como tradição, e é para isso que estamos trabalhando. Como também vemos o clube como um veículo capaz de impactar mais de 30 milhões de torcedores via mídias digitais, levamos informação útil e iniciativas solidárias, com o sonho de terminar a pandemia sem nenhum torcedor a menos.
Somos testemunhas dos elogiáveis esforços da CBF, da Federação Paulista de Futebol e de outros clubes. Mas é preciso repensar, de forma ampla, o papel do futebol e sua influência nesse jogo.
Na Alemanha, houve diálogo intenso entre todos os agentes políticos e esportivos, e um princípio foi claro para a Bundesliga: o futebol não pode se antecipar ao controle da pandemia. Quando a sociedade confiou no sucesso do combate alinhado entre governo e estados alemães, a Bundesliga finalmente retomou seus jogos em sincronia, no último dia 16. Houve responsabilidade com seu produto, seus astros e seu público.
O futebol brasileiro, porém, caminha para outra direção.
Se o combate ao vírus não tem alinhamentos entre os governos, no futebol as reações estão ainda mais fragmentadas. Com decisões facultadas aos Estaduais, criam-se ruídos. O futebol perde muito como produto quando transmite que, para a bola rolar, basta decidir qual clube está mais pronto, ou qual estado está mais disposto a riscos, enquanto se somam mais de mil óbitos por dia.
Em 2020, a Série A tem 20 clubes de nove estados, cada um com panoramas distintos da doença. Isso pede um trabalho mais coordenado entre governos, clubes e federações. Num esporte coletivo, não dá para jogar sozinho.
Sem isso, qualquer retorno apenas adiará a próxima pausa forçada, em que os clubes vão, de novo, agonizar. Como negócio sustentável, o futebol só poderá voltar depois de uma articulação eficiente, focada tanto no bem-estar das pessoas quanto na segurança da Saúde nos estados envolvidos.

Andrés Sanchez


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